Construção e Libido

 

Muitos são os elementos que aguçam o trabalho de Jorge dos Anjos. Mais do que usufruir a liberdade contemporânea da arte, que se apropria de pouco menos que tudo, sua obra é marcada por uma pulsional inquietude.

Um indício desse fazer que evita o repouso, a acomodação, é a diversidade de configurações tridimensionais a que tem chegado, seja quanto à maior ou menor proximidade das categorias artísticas mais tradicionais – Desenho, Escultura, Pintura e Gravura –, seja com relação às dimensões e campos de ação das obras. Ao se estender do pequeno ao grande, transitar entre interior e exterior, fluindo entre as escalas, responde aos permanentes anseios de vivência artística na esfera privada e à requisição de um estatuto efetivamente público para a arte.

Também diferem os materiais experimentados: ferro, pedra, madeira, papel, carvão, pigmento, feltro, plástico, pólvora. Além das matérias em estado bruto e daquelas previamente processadas, para uso artístico ou não, também lhe interessa intervir em alguns objetos do cotidiano atual, como os tamboretes industriais com suas tampas metálicas gastas pelo tempo. Entre as substâncias naturais, o fogo, desde sempre presente, se tornou mais decisivo e quase explícito ultimamente.

Para transformá-los, ele se vale de variados procedimentos: risca, corta, dobra, articula, cola, pinta, grava, queima. Recentemente, começou a marcar feltro com chapas de ferro incandescentes e a combustar pólvora em plástico. Ações desdobradas de práticas anteriores, mas que subvertem o método usual de constituição das obras, ao minimizar o controle do artista sobre o processo produtivo e seus resultados, os tornando um tanto abertos ao acaso.

Acento novo do acontecer em seu trabalho que obriga a repensar duas de suas constantes: a geometria euclidiana e o caráter gráfico. Pois mesmo suas peças mais evidentemente volumétricas são marcadas por um grafismo que parece ser, a princípio, apenas um atributo plástico. Contudo, basta pensar no trabalho de Amilcar de Castro, que Jorge dos Anjos tem como um de seus mestres, para perceber como a indelével riscadura quer manifestar, permanentemente, o ato de construir. Caso lembremos outra de suas referências – a obra de Rubem Valentim – e como cultiva conexões com o universo afro, podemos alcançar o significado ativo, criador, instaurador de mundos, da linha e do riscar para os nagôs.

O que amplia o sentido dos signos geométricos para além da condição de emblemas de uma racionalidade, sacra ou profana, tomada como modelo a ser atingido. Embora esteja imbuída de significados culturalmente localizados, aludindo tênue e ambiguamente a mitologias por vezes opostas, a geometria procura se afastar tanto do idealismo do projeto construtivo moderno, quanto da estabilidade mágico-religiosa de matriz africana. É dúbia a razão que opera, são imprecisos os mitos a que se refere.

Vital, essa pulsante geometria é, ao mesmo tempo, um indício do processo de vir-a-ser da obra e um elemento propulsor de sua fruição, evidenciando uma plasticidade a envolver matérias, linguagens, sujeitos. Além de encantar com seus jogos espacialmente dinâmicos, irredutíveis apenas ao tato ou à visão, de instigante corporeidade, as obras de Jorge dos Anjos nos fazem ver que seu construtivismo é quase libidinal. Assim como pode ser construtiva a libido.


Roberto Conduru

(Professor de História da Arte – UERJ).

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Jorge dos Anjos, escultor e pintor

 

Ângelo Oswaldo de Araújo Santos

 

 

A obra escultórica de Jorge dos Anjos apresenta uma grande riqueza morfológica, mas para perceber essa variedade de formas e a sua complexidade, como para fruir intensamente o fenômeno estético que enreda, é preciso que o espectador atravesse todo o território à primeira vista situado aquém do universo prestes a se revelar.

 

Ao cifrar um alfabeto novo, tão genuíno quanto ancestral, ele alcança fascinante originalidade a partir de referências a afrografias, palavra que tomo à escritora Leda Martins. Conferindo aos vocábulos da dicção afro-brasileira o tratamento inovador de uma elaboração construtivista, o seu geometrismo tem o vigor da criação contemporânea e a emoção da origem atávica. O corte concretista incide sobre os afro-signos de modo a desbastar a forma, estimular a concisão e consagrar o menos sobre o mais.

 

Rubem Valentim, na pintura, trabalhou essas matrizes geométricas em infinitas possibilidades impulsionadas pela cor. Na escultura, Amílcar de Castro foi o mestre do rigor e da síntese. Em ambos os campos, porém, Jorge dos Anjos surpreende pela força de uma linguagem própria, que o distingue como criador.

 

As superfícies de feltro em que faz incisões com ferro em brasa, que evocam a maneira dos suplícios infligidos aos escravos, são uma pintura instigante, como resultado plástico-visual, e perturbadora, pelo estremecimento da memória. Ele pinta a ferro e fogo, e na obra arde o resgate histórico por sob a convergência lúdica dos signos. As esculturas, em depuração formal que jamais elimina a reinvenção do gesto, têm o caráter totêmico que as monumentaliza e lhes atribui solene valor iconográfico. Como pintor e como escultor, seu trabalho alcança a depuração formal que só faz enriquece-lo pela contundência do resultado.

 

Nascido em Ouro Preto, Jorge dos Anjos faz escultura com chapas de ferro e já empregou a pedra sabão em belos ensaios tridimensionais. O artista está entre os mais reconhecidos da atualidade brasileira e realizou apresentações no exterior. 

A FERRO E FOGO

 

Se tomarmos ao pé da letra a oposição dicotômica inspiração/trabalho de arte, tornada clássica pelo modernismo, não teremos grandes possibilidades de fruir de forma mais intensa a obra de Jorge dos Anjos. Sempre atento à exploração microestrutural dos elementos com os quais trabalha – a despeito de sua recorrente opção pelas grandes escalas –, o artista dá a ver sua índole construtiva no modo como reconfigura antigas formas escriturais hauridas no repertório plástico-visual das culturas africanas e do Atlântico Negro – as mesmas que, em mãos/cabeças menos empenhadas na constituição de uma verdadeira poética, têm sido reduzidas à condição de meros resíduos de valor etnográfico ou folclórico.

É que Jorge planeja, de fato, o passo a passo de seu trabalho. Não por pretender fundar uma via de criação inalterável, mas, pelo contrário, por pensar cada projeto como uma instância em que se deve levar em conta a hipótese do erro, do desvio e até mesmo do fracasso. O que faz, por seu turno, com que se torne impertinente falar em fracasso (absoluto) de um projeto, para lembrar o músico-poeta John Cage. Afirma-se aí, nesse ponto de intersecção entre o planejador, o planejamento e a coisa planejada, a maior das qualidades de Jorge dos Anjos como artista, a meu ver: sua capacidade de posicionar-se, creio que todo o tempo, em estado de disponibilidade criativa – atributo a que outros talvez prefiram dar o nome de inspiração.

Tal característica é ressaltada nesta nova série de obras, A ferro e fogo, em que Jorge amplia a dimensão performativa de seu projeto estético por meio da utilização dos dois elementos citados no título, ou melhor, da ação desses elementos sobre um terceiro, o feltro. Mencionar a performance, aqui, significa destacar o quanto há de investimento do corpo na confecção de trabalhos que, apenas contemplados, de forma passiva, numa exposição, pouco diriam da dinâmica de que resultaram. Em outras palavras, o esforço de enfatizar os sinais da participação do corpo do artista na elaboração de sua obra tem como função principal trazer à luz a impactante “inversão performativa da injúria” operada por Jorge dos Anjos (essa expressão foi criada por Judith Butler para falar das estratégias de ressignificação lingüística desenvolvidas pelo feminismo radical dos anos 1970 que aproximaram o movimento das políticas queer – termo que surge, por sua vez, como resposta “de um setor da população gay, lésbica, transexual e transgênero dos Estados Unidos ao caminho que havia tomado o movimento homossexual mais influente”, de acordo com Carmem Hernández Ojeda).

Em gesto análogo ao de “veados” e “sapatões”, que rascunharam novas hipóteses de identidade sexual a partir da ressemantização de expressões de cunho injurioso, em sua origem, Jorge dos Anjos dá outra destinação a um aparato tecnológico apropriado das práticas de terror utilizadas contra os milhões de homens e mulheres negros submetidos, no Brasil, ao trabalho escravo: a impressão a ferro e fogo, sobre seus corpos transformados em mercadorias, de monogramas e marcas de propriedade – e também de punição daqueles que eram apanhados em meio a tentativas de fuga, conforme previa um alvará real de 1741 (“Se lhes ponha com fogo uma marca em uma espádua com a letra ‘F’ …, e se quando se for executar essa pena for achado já com a mesma marca, se lhe cortará uma orelha”).

Tendo confeccionado aproximadamente 100 ferretes que trazem na ponta variações das formas recortadas características do seu trabalho, cada um com cerca de 80 cm, Jorge coloca alguns deles na fornalha e, tão logo estes se encontram suficientemente aquecidos, pousa-os com um misto de suavidade e firmeza sobre a superfície da tela de feltro disposta no chão. Como não perceber, nos deslocamentos corporais do artista – ora assemelhados à dança, ora francamente desajeitados – em busca da melhor posição em relação à tela, a sutil lembrança de que o corpo negro já foi, noutros tempos, o suporte para a gravação de uma variada iconografia que expressava nada menos que uma visão de mundo ainda hoje detectável no imaginário da sociedade brasileira?   

Nenhuma injúria será apagada por esses raros gestos de “inversão performativa” – propósito que, de resto, jamais passaria pela cabeça desse artista para quem ética e estética, se não são necessariamente “uma coisa só”, de acordo com o conhecido aforismo do filósofo Wittgenstein, bem podem tornar-se, em certos momentos decisivos da história, faces complementares de uma mesma moeda –, mas somos para sempre afetados por tamanha beleza. Uma beleza inquietante, difícil, áspera, diga-se, porque advinda de um projeto pessoal de atualização e compartilhamento de perguntas tão incômodas quanto fundamentais sobre a recordação como matéria constitutiva da arte e, por extensão, da vida da comunidade.

 

Ricardo Aleixo

(poeta, artista intermídia e editor da revista

Roda – Arte e Cultura do Atlântico Negro)

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cronologia intemporal para Jorge dos Anjos

 

 

as ladeiras ouropretanas em muito contribuíram

para uma cultura de minerais, conspirações e nevoas

numa geografia de conquistas, descobertas e invenções.

um novo Brasil passa a ser recriado em seu interior,

por mãos de barro e sonho que buscam ouro,

voltando olhos para o solo rubro de metais

e propondo novas identidades, patrimônios, fazeres.

essa historia é escrita por múltiplas peles e linguagens,

quando a caravela lusa, retida na costa, vê nas montanhas

a aventura humana na constelação de sonhos e pretensões,

e é lida num texto de sangue, com passos de liberdade e luta,

num novelo político que propõe, no pote diverso das raças,

o mosaico nacional de uma utópica e impossível certeza.

o menino pisa capistranas atento às torres e montanhas,

olho no chão e céus, estrelas aterrizadas em buscas,

e nas explorações do lápis, pincel, giz, tela, carvão e papel,

investigando a nova negritude policromática dos materiais

em diálogos com os mestres do passado e atuais amigos.

Jorge dos Anjos, em seu próprio projeto, nasce diariamente,

na pessoa que expande a biologia experimental da arte

e migra das suas natais serras barrocas, numa fé móvel,

aos horizontes metropolitanos, aos embelezáveis desafios,

e empreende seu vôo de luz e sombra, de aço e fogo.

e sonha em pedra sabão e óleos, em chapas e madeiras,

em tecido, feltros, borrachas, e flores recortadas em cor,

também em cubos, planos, cortes, espaços, dobras e vãos,

numa tensão solta, entre a descoberta e a invenção,

na fronteira da criação e do labor, do silencio e do riso.

na caminhada rítmica do tempo, sem repouso cessante,

segue Jorge sua saga artística, incansável investimento,

em dinâmico calendário, ausente de promessas doces,

e que vai percorrer os dias em guindastes e levitações,

e proposições, projetos, linhas, letras e protótipos,

em recortes e geometrias das recém nascidas matemáticas.

este ciclo de esferas e anéis, pontas e pontos sem fim,

são viagens que partem de Áfricas refazendo o percurso

entre a América e o mundo e que desembarca riscos

em terras de Espanhas, Holandas, Bélgicas e Franças,

e até em rios saopaulinos, destinos sulinos rebelados

na falsa pretensa periferia dos centralizadores discursos.

em diálogo popular com a espontânea sabedoria do sentir

o Anjo mostra os outros gestos gráficos da dicção brasileira

num poema que surge, avança, retoma, escuta, e encara

as semanas e meses, do ano que passa em números e horas,

deixando apenas o minério da experiência, da vivencia, do saber…

João Diniz, 2011

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Na História da Arte, os arquitetos e os artistas sempre trabalharam juntos.

Construíram cultura e estética, geraram fundamentos do estar no mundo, na busca do equilíbrio e da harmonia.

Algo cada vez mais raro.

 

Por que não acreditar nisso, se é tão rico?

Por que evitar se é tão instigante?

 

Como não quero encontrar a resposta, prefiro ir aqui trabalhando com essa gente que me fala ao coração.      

 

Traz ânimo, faz pensar, ajuda a criar.      

 

O meu amigo Jorge dos Anjos, mostra em suas peças a energia e a beleza de gente inquieta e criativa.

A imensa curiosidade e a vontade de se expressar em suportes diferentes, multicoloridos e monocromáticos, grandes e pequenos, cheios e vazados:

Tudo é festa para ele!

 

Sua arte dialoga com o silêncio e me alegra a alma.

 

 

 

 Gustavo Penna


Eppuri si muove – Cartografia de Jorge dos Anjos

 

As qualidades das obras de Jorge dos Anjos, artista cujo trabalho vem sendo objeto de crescente interesse de público e crítica, parecem impor, como condição de sua fruição, uma deposição dos esquemas de afeto e pensamento aos quais, leigos ou especialistas, inexoravelmente recorremos para abordá-las. As palavras que buscamos para caracterizar suas formas, ou a desmaterialização delas, parecem escapar pelas frestas de seus volumes, pelo vácuo de suas tramas, ou ainda – algo que pode parecer paradoxal – pelos ângulos de seus cromatismos. Para aquele que teve a chance de testemunhar os depoimentos de Jorge dos Anjos acerca de seu trabalho - seus testemunhos francos e contumazes - não é novidade que ali ele parece gestar a morada de uma surpresa furtiva, cuja tradução poderia ser simplesmente encontrar música onde se buscava a volumetria escultórica ou espessura disfarçada em arranjos de cores. E pelos interstícios de suas geografias, geologias e etnografias, ou pelos caprichos e laços dos aços, o vento que passa, como lembra Manuel Bandeira, pode vir a ser também o “canto da noite”.
 
Fortemente identificada pela crítica, num primeiro momento, ao paradigma estético afro-descendente, a obra recente de Jorge dos Anjos parece não somente dele explicitamente demarcar-se, como também de sua suposta dívida para com a tradição escultórica concretista. Mesmo o recurso reiterado às formas e raciocínios geométricos – supostamente reportáveis ao entrecruzamento dessas duas tradições – vêm assumindo em seu trabalho destinos singulares. Lembremos que, na tradição do racionalismo moderno, a ciência geométrica prometeria à audácia do pensamento uma via régia para o estabelecimento da verdade e do esclarecimento. Quando Espinosa publica em meados do século XVII sua Ética demonstrada à maneira dos geômetras, isso pareceu significar que o cálculo das formas, seus encaixes, enquadres e articulações poderia coincidir com a estrutura mesma da razão, de modo a promover, sob o uso metódico de seus raciocínios, as conquistas derradeiras não somente da ciência, mas também do pensamento moral e da sensibilidade estética. Se é verdade que, em momentos diversos, Jorge dos Anjos faz uma arte à maneira dos geômetras, cumpre observar, contudo, que seus resultados – ao contrário do que esperariam almas mais cartesianas – restauram à sensibilidade uma opacidade e um sentimento de indeterminação que parece realizar às avessas as esperanças de uma apreensão formalista do real. Seu “desenho em relevo” (sic.), ora acrescido de elementos destacáveis em borracha pigmentada, perfaz um jogo sensitivo em que o volume que mal se contém no plano em que se insere inclui rasuras que brincam com a imaginação geométrica, herdada da tradição das luzes. Os recentes cubos de Jorge dos Anjos assim o evidenciam de forma absoluta, pois são rasurados por seções que ora se abismam em seu interior, ora se projetam sobre sua superfície, metamorfoseando-se, divertindo o olho pelos tropeços do pensamento, à moda de um Escher.
 
Indagado sobre o fundamento de algumas de suas grandes esculturas, Jorge pareceu confirmar certa inspiração dualista que as anima: “sempre dois”, disse-me ele, certa feita. De fato, as edificações de sua siderurgia põem em cena contrastes entre blocos volumétricos que, numa aparente contraposição, subitamente se engancham, se cumprimentam, brigam, felicitam-se... e se despedem. Um dualismo sem sínteses,  abismado. Do conluio/conflito dessas vigas, blocos, mastros e entalhes – melodias de ferro e madeira – extrai-se um tenso equilíbrio, uma harmonia, embora estranha. Cochilam, incólumes, sobre a matéria mas – como no dito de Galileu – “no entanto, se movem”. Pau e pedra, ferro e fogo, matéria e vazio. “Daqui a cem anos aquilo vai ficar ali”, disse de própria voz o artista. “Crestem-na os sóis, lasquem-nas os raios, a ferrugem que a vermine, a lama que a conspurque e os cães que a mordam”. Como nas palavras de Guerra Junqueiro, eis a obra de Jorge dos Anjos erguida com toda a coragem ao ar livre e em praça pública, sujeita “às coroas da apoteose a aos coices dos onagros”. Exposta ao “crítico dos críticos, o tempo, infalível e insubornável”.
 
O trabalho de Jorge dos Anjos, em que se imbricam signos e sensibilidades de suas reminiscências ouro-pretanas, articulados com suas pesquisas, experimentações e interlocuções com importantes artistas e críticos, ganha o verniz da leveza e da ironia sob o patronímico que o artista mesmo lhe reserva: “uai-tech” ou “tecno-roça”. De sua incomparável usina advêm, portanto, esses exercícios de siderurgia dialética. No alto-forno de sua sensibilidade estética se liquefazem linguagens e dialetos, que o artista reconstrói de modo a um tempo singelo e brutal, suave e viril, com carícias e marteladas. Note-se, ainda, que Jorge insiste em salientar a relevância do “processo”, a feitura, a gravadura, a escritura, atos cuja dignidade é inseparável da obra como resultado. E por meio dos quais sujeito e obra se engancham, se cumprimentam, brigam, felicitam-se e se despedem. Jorge nos demonstra, com precisão geométrica, que o sentimento da arte, ao desprender-se da matéria, dá-nos a ver uma cartografia do mundo que, na bela expressão de Koyré, nos convida à passagem de nosso mundo fechado ao universo infinito.


Guilherme Massara Rocha

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